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Mulheres e o movimento sindical: notas sobre o 8º Encontro Nacional de Mulheres da CUT

encontro cut

 

Letícia Gonçalves – vice presidente do Sindicato das Psicólogas de MG

Aconteceu, entre os dias 27 e 29 de março de 2015, o 8º Encontro Nacional de Mulheres da CUT, com a presença de mais de 600 mulheres trabalhadoras de diversas categorias e regiões do Brasil. O encontro histórico é também chamado “Encontro da Paridade” e teve esse como tema central de debate. Essa pauta histórica marca uma urgência no interior da central, e te toda luta da classe trabalhadora, avançar na garantia da democracia interna. De modo geral, e com todas as diferenças, o apontamento da dificuldade de inserção e permanência das mulheres nos espaços sindicais foi unânime. Apesar da classe trabalhadora ser composta por homens e mulheres, e as lutas terem a presença das mulheres com destaque, temos ainda convivido com a ideia de que participação política é “naturalmente” uma atividade de, e, para homens. Porém quando desconstruímos o natural, percebemos a produção de espaços hostis para as mulheres, que as impedem de acessar, ou quando acessam, de permanecerem nesses espaços. Reconhecidamente, as condições materiais da participação das mulheres na vida política são distintas das dos homens, pelas demais responsabilizações sociais atribuídas, como cuidado com filhos e tarefas domésticas. No interior das instituições, percebemos ainda outras históricas formas de dominação, conforme apresentado no encontro e listadas de forma breve a seguir:

1) Invisibilização do trabalho: de forma recorrente, as mulheres são tomadas nos espaços sindicais como aquelas que irão executar tarefas, mas que não vão pensar sobre elas, ou participar de processos de planejamento. Como aquelas que apenas executam muitas ações, inclusive, aquelas que os homens não querem realizar, e que, portanto, não têm relevância no contexto geral. Da mesma maneira que os trabalhos domésticos exigem duro esforço cotidiano e nenhuma valorização. Assim, escutamos relatos de diversas mulheres, que têm atuado ativamente nos sindicatos, mas os reconhecimentos são atribuídos aos homens.

2) Silenciamentos: essa é outra forma de desvalorizar a presença e participação das mulheres, reproduzindo uma estratégia potente e histórica de dominação: retirar a possibilidade de fala. Também em muitos relatos, a voz das mulheres não tem credibilidade nos espaços sindicais. Poucas vezes ocupam lugar de fala e, em momentos de debate, ou disputa, suas vozes tem pouco peso.

3) Ridicularização: essa estratégia envolve considerar que as ações, posicionamentos, falas das mulheres não merecem credibilidade. Comentários como “é a TPM”, “mulher é muito sentimental”, “está falando bobagem”, etc, são também recorrentes. Além desses, outra forma de ridicularização é associar características naturalizadas como das mulheres nesses espaços, como beleza, delicadeza, cuidado, fragilidade. Assim as mulheres são convidadas para “embelezar”    o ambiente, ou cuidar das relações, organizar o espaço. Sustentando nisso temos convivido, inclusive, com assédios sexuais dos mais variados.

4) Cobranças excessivas: Também é recorrente verificarmos que as cobranças feitas aos homens e às mulheres não possuem o mesmo peso. É como se dissessem, e muitas vezes dizem: “não quer participar do movimento sindical? Então agora aguente.”. E assim, as mulheres têm que provar todos os dias, todas as horas, que são competentes, que dão conta. Conta de ocupar um espaço negado, que precisa ser conquistado a cada minuto.

5) Dificuldade de acesso às informações: negar informações importantes para as atividades é outra estratégia comum. Em geral, as mulheres recebem as informações que os homens julgam que lhes cabem, ficando de fora aquelas cruciais. Assim, compartilham informações e decidem entre eles. Nessa mesma lógica as mulheres precisam o tempo todo prestar contas de suas tarefas, enquanto a cobrança para os homens não é a mesma.

6) Afastamento dos espaços decisórios: como reflexo das demais estratégias de dominação, as mulheres não participam ou pouco participam dos espaços decisórios. Quando muito são informadas posteriormente das decisões ou participam de supostos espaços decisórios, quando tudo já foi decidido anteriormente, por um pequeno grupo.

Não há intenção de generalizar, antes que alguém venha dizer que é homem e age diferente. Se você é homem e dá conta de reconhecer seus privilégios, ótimo! É sua obrigação, é seu movimento de coerência. O mais importante é destacar que, como podemos perceber, não há nenhuma naturalidade em como tem se consolidado a participação das mulheres nos espaços sindicais. A formação política e preparo para atuação nesses espaços se constrói, para homens e mulheres. Precisamos romper com a lógica de um sindicalismo de, e, para homens. Essa deve ser a responsabilidade assumida: criar e fortalecer espaços de participação das mulheres. Não nascemos desprovidas de preparo, nascemos em uma sociedade patriarcal, que nos impede de ocupar esse e diversos outros lugares. E infelizmente temos convivido com muitos companheiros que legitimam todos os dias essa lógica. Sem mulheres não há revolução. Além da enorme contradição evidente, perdemos todas e todos! Não é só número, para paridade é preciso mudar o funcionamento, para as mulheres permanecerem. Não queremos somente mais mulheres nos espaços de poder, queremos mudar a forma de fazer política, queremos mudar as “prioridades”. Sabemos ainda que nós mulheres não somos todas iguais, precisamos também assumir o racismo estrutural, reconhecer também os privilégios brancos. E essa pauta não pode ser secundarizada.

Para finalizar, gostaria de dizer que foi um encontro inspirador, ouvir de tantas mulheres experiências semelhantes e suas formas de resistência fortalece a todas nós! Parabéns às organizadoras, todas as mulheres presentes, e a todas as mulheres que resistem cotidianamente às opressões que nos são impostas.

 

(Foto: Roberto Parizatti)

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